“C. queria ser boa aluna a tudo, mas, aos 14 anos, as dores de cabeça insuportáveis superaram o drama de escolher uma área de estudos e profissão. Pelos livros, sabia o que era o cancro e só deseja voltar aos seus problemas antigos. Os pais arregaçaram as mangas e, com a Acreditar, tudo fizeram para que o medo e dureza dos tratamentos não a fizessem perder a enorme sede de futuro. Com acompanhamento psicológico, definiu estratégias para lidar com a nova realidade. O corpo, ainda não refeito da puberdade, mudava a cada dia de forma assustadora. Com apontamentos de colegas e o apoio de professores voluntários estava menos aflita por ter de faltar às aulas, e, com o grupo de jovens, participou em todos os workshops: fertilidade, nutrição, defesa dos direitos, etc. Foram tempos difíceis também para a família de C. Hoje, continua em vigilância. As sequelas são muitas mas para quem sabe tudo por que o sistema nervoso central passou, fica fascinada com a complexidade do corpo humano, a sua tendência para a regeneração e, claro, a medicina. Passaram mais anos do que “o suposto”, mas agora sem a mínima crise vocacional, está dedicada ao curso de enfermagem. Com muito menos ansiedade, C. continua a procurar respostas para os porquês da vida.”
Os direitos à liberdade de expressão e reunião pacífica estão severamente restringidos na Rússia, situação que se agravou ainda mais após a invasão à Ucrânia. Foi perante este contexto que a vida de Aleksandra (ou Sasha, como é conhecida) mudou radicalmente.
Preocupada com a invasão russa da Ucrânia, Aleksandra decidiu agir. No dia 31 de março de 2022, substituiu as etiquetas dos preços de vários produtos num supermercado local em São Petersburgo por papéis com informações sobre o bombardeamento russo ao teatro de Mariupol, na Ucrânia, onde centenas de pessoas se abrigavam.
Na manhã de 11 de abril de 2022, a polícia deteve Aleksandra e acusou-a de
“disseminação pública de informação reconhecidamente falsa sobre o uso das Forças Armadas da Federação Russa” – um novo artigo no código penal introduzido pelo governo russo, em março de 2022, com vista a impedir que a população russa critique a invasão à Ucrânia. Até junho de 2022, foram abertos quase 2.000 casos administrativos por “desacreditar as forças armadas”, maioritariamente contra pessoas com opiniões críticas à invasão da Ucrânia. Foram iniciadas mais de 50 investigações por “disseminação pública de informação reconhecidamente falsa”, sendo que, na sua maioria, dizem respeito à partilha de informação sobre relatos de crimes de guerra cometidos pelas forças russas na Ucrânia.
Em 16 de novembro de 2023, Aleksandra foi condenada a sete anos de prisão.
Contudo, depois de estar mais de dois anos detida, as autoridades russas libertaram Aleksandra Skochilenko no dia 1 de agosto de 2024, após a Amnistia Internacional lançar um apelo mundial a apelar à sua libertação. Só em Portugal, mais de 28 761 pessoas assinaram a petição a apelar à sua libertação.
“Quero deixar um enorme obrigada à Amnistia Internacional. É difícil expressar a minha gratidão em palavras, isto porque, em grande parte, estou aqui graça a vocês” (Sasha)
“Aos 11 anos, Ana (nome fictício) assistiu ao homicídio da mãe e foi viver com a irmã, também ela vítima de violência doméstica. Ana teve coragem de ligar para o Gabinete de Apoio à Vítima, conseguindo que a irmã pedisse ajuda. Surgiram vagas numa Casa de Abrigo para Ana, a irmã e as suas duas filhas. Não perderam a oportunidade: “Era muito provável que a minha irmã viesse a terminar da mesma forma que a minha mãe”. O próprio agressor tinha feito essa ameaça. Mas, na Casa de Abrigo, tudo foi diferente. “Estamos a falar de um sítio onde as pessoas são vistas na sua individualidade e reconhecidas por aquilo que são. Ainda hoje penso nas técnicas que nos acolheram quase como parte da família.” Mesmo assim, Ana continuou a sentir culpa ao pensar no que podia ter feito para ajudar a mãe. Só há alguns anos começou a libertar-se deste peso. Hoje, tem um namorado que a trata bem, mas vive preocupada com alguma parte obscura que não esteja a identificar. “Tens de fazer um esforço muito grande no dia a dia para conseguires atenuar isso e encontrar alguma paz.” Ana fez um mestrado e uma pós-graduação e hoje é independente e tem esperança no futuro. Quanto à irmã, não parece a mesma: Ana assegura que evoluiu bastante a nível físico e psicológico."
“Francisca, Rafael e Guilherme Nobre, trigémeos com 12 anos, têm diversas questões de saúde: Francisca tem paralisia cerebral e Guilherme e Rafael têm síndrome de Leigh, uma doença rara degenerativa e sem cura. Apesar desta difícil conjuntura, a família não baixou os braços: a mãe, Sandra, assumiu o papel de cuidadora dos filhos, tornando-se o pai, António, a única fonte de rendimento da família, num percurso marcado por mudanças e aprendizagens constantes. Como não podiam adquirir os equipamentos que fariam a diferença na vida dos filhos, procuraram ajuda, e conseguiram-na. Hoje, Francisca beneficia de um fato de estimulação elétrica para reduzir os espasmos e ativar os músculos, melhorando a sua motricidade, e uma cama articulada, e Guilherme de uma cadeira de posicionamento que permite atenuar as deformidades existentes e permanecer mais tempo sentado, e uma cadeira de transporte automóvel. António e Sandra afirmam que estes apoios foram essenciais para melhorar a qualidade de vida dos filhos, contribuindo para a sua saúde, segurança e felicidade.”
Testemunho – Marisa
Conhecemos a Marisa há seis anos e acompanhámos de perto o seu percurso, as suas
conquistas e também os desafios. Mãe solteira, resiliente e determinada, a Marisa é um
exemplo do impacto que o apoio certo pode ter na vida de uma mulher — especialmente
numa sociedade que ainda apresenta desigualdades no acesso a oportunidades, no
reconhecimento do talento e na progressão profissional das mulheres.
Ao longo do seu caminho, a Dress for Success® Lisboa esteve presente em diferentes
fases — desde os primeiros passos no mercado de trabalho, à preparação para as
entrevistas, até ao acompanhamento em momentos decisivos. Há alguns meses, pediu-nos
uma referência profissional para a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Hoje, é lá que
trabalha como Assistente Social.
A própria Marisa partilha:
“Quero partilhar convosco uma notícia que me enche o coração: consegui a
vaga para exercer como Assistente Social na Santa Casa da Misericórdia de
Lisboa! Esta conquista é muito especial para mim, mas também sinto que é vossa. A
Dress for Success® tem estado presente em vários momentos do meu caminho
— antes mesmo de eu entrar para a SCML, quando comecei como auxiliar, nas
fases de preparação para entrevistas e até durante o estágio, quando se
disponibilizaram a realizar workshops na Gira.
Cada palavra de apoio, cada incentivo e cada gesto de confiança que recebi de
vocês fizeram-me acreditar que era possível. A força que me transmitiram foi
essencial para eu não desistir e continuar a lutar pelo meu objetivo.
Agradeço de coração por caminharem comigo nesta jornada. Levo comigo o
vosso exemplo de empatia, partilha e motivação.”
A história da Marisa reflete a missão da Dress for Success® Lisboa: apoiar mulheres na
construção da sua autonomia económica e profissional, removendo barreiras que persistem numa sociedade que ainda não é plenamente igualitária, e criando condições reais para que
cada mulher possa alcançar o seu potencial.
“A vida dos pais para, mas tudo o resto à volta continua. Há que gerir, tratar, resolver de forma a que nos consigamos centrar na criança e naquilo que nós, como pais, a nível do bem-estar, a nível do conforto, a nível da distração, de tudo aquilo que nós podemos fazer. […] Não estamos sozinhos, a Fundação faz muito esse papel: poder chegar a nós de uma forma clara, que o leigo consegue perceber e identificar-se com aquilo que lá está. Por isso, eu acho que é um trabalho exemplar.” Testemunho da Mãe de uma criança com cancro."
“Em 2017, 100 voluntários inexperientes, um mestre de obras novo em projetos comunitários e parceiros que nunca tinham visto a instituição atuar abraçaram o primeiro projeto no Porto: ajudar o sr. Francisco. Conhecido como “Padeiro” na ilha onde sempre viveu, tinha 54 anos, vivia sozinho e enfrentava dificuldades diárias. Sem emprego, apenas com o 4º ano de escolaridade e uma incapacidade auditiva de 70%, dependia de um rendimento mínimo de menos de 200€ mensais. A falta de condições na sua casa impedia-o até de viver com a namorada, o que o entristecia profundamente. Durante quatro meses, a sua casa foi transformada e, com ela, a sua vida. Chico, como passou a ser chamado, envolveu-se ativamente na obra, tornando-se parte da solução. No final, tinha uma casa segura, água quente e novas oportunidades. A sua confiança renasceu, encontrou trabalho e conseguiu viver com a namorada. A comunidade, que no início olhava com desconfiança, juntou-se à instituição numa grande festa. Três anos depois, Chico continua na sua casa, trabalha como padeiro e ajuda outras pessoas. A sua história simboliza o impacto de reabilitar casas: reconstruir vidas e inspirar mudanças duradouras.”
“Embora tímida e inicialmente desconfiada do poder transformador de um desejo realizado, a Beatriz partilhou com as voluntárias que, apesar de não conhecer muitos locais pessoalmente e nunca ter ido à praia, era fascinada por animais marinhos. A condição de saúde da Beatriz condiciona a sua autonomia, pois tem dificuldade em deslocar-se e está dependente dos bombeiros para se poder movimentar, o que também impacta a dinâmica da família. Através de um jogo de palavras, percebeu-se que o grande desejo da Beatriz era ter uma bicicleta adaptada, construída de forma personalizada, de acordo com as suas necessidades. O dia do desejo foi uma surpresa vivida com muita emoção por toda a família: começou com um passeio Hippo Trip, seguido de um piquenique, onde foi desvendada a tão desejada bicicleta que ia mudar para sempre a sua vida e lhe daria mais autonomia e o poder de conhecer o mundo sob duas rodas! No fim do dia, a família foi ao oceanário e disfrutaram todos muito do universo marinho. Este dia em família, onde várias barreiras foram superadas, foi uma oportunidade para abrir horizontes e mostrou como um passeio fora das suas rotinas pode ser uma experiência tão simples, mas tão transformadora. Como partilhou a família, “nunca tínhamos tido um dia tão feliz.”
Aos 71 anos, Isabel carrega uma vida inteira de desafios, mas também a força de quem
nunca desistiu. Hoje, encontra alento no apoio da Médicos do Mundo e na esperança
que sempre a guiou.
“Nasci numa família pobre. O meu pai morreu quando eu era miúda e a minha mãe
estava grávida.” Ainda jovem, emigrou para França, onde viveu um casamento marcado
pela violência. “Tive de vir embora. Vim sozinha com o meu filho, de comboio, com
ajuda de pessoas que nem conhecia.”
Em Portugal, tentou recomeçar, casando-se novamente. Mas a vida voltou a pô-la à
prova: perdeu uma perna num acidente grave e ficou em coma, numa altura em que
tinha filhos pequenos. A recuperação foi longa, mas Isabel não baixou os braços. Com o
apoio da família, conseguiu manter a casa e criar os filhos.
Mais tarde, assumiu novas responsabilidades: criou dois netos e garantiu-lhes um
futuro melhor. Hoje, já são adultos e seguem a sua vida.
Isabel vive com as marcas do passado, mas também com a dignidade de quem resistiu
a tudo.
“A minha vida foi dura. Mas não podemos pensar no pior." O apoio da Médicos
do Mundo tem sido essencial: acompanhamento psicológico, articulação com o Serviço
Nacional de Saúde e ligação ao serviço social. “Este apoio têm-me ajudado muito.” A
ansiedade, que a impedia de dormir, tem dado tréguas. “Antes via passar as horas… e
agora não.”
Histórias como a de Isabel lembram-nos porque é tão importante cuidar de quem
cuidou, sobretudo quando a vida foi dura demais.
"Quando a pequena Hamida chegou ao hospital em Kebbi, no noroeste da Nigéria, tinha quase dois anos e estava em estado crítico de desnutrição. O seu corpo estava frágil, o olhar apagado, estava tão enfraquecida que mal conseguia chorar.
A equipa da Médicos Sem Fronteiras avaliou-a e rapidamente começou o tratamento
nutricional. Nos primeiros dias, o silêncio da Hamida era difícil de suportar. Sabíamos que,
quando uma criança deixa de ter forças para chorar, está em perigo. Mas aos poucos,
começaram a surgir sinais de vida. O olhar que se acendia, o movimento das mãos, a energia que voltava. E, um dia, a Hamida chorou. Um som simples que para nós, estava cheio de significado.
Hoje, a Hamida está mais forte. E para nós, cada vez que uma criança recupera a força para
chorar, lembra-nos o poder do cuidado, da presença e da esperança."
“No contexto do hospital, e em particular da pediatria, o choro é característica de ocorrência natural na paisagem acústica. Nesse dia, os Doutores Palhaços andam pelo corredor e ouvem um choro intenso, vindo da sala de tratamentos. É o G., de 5 anos, agitado e num pranto. As enfermeiras querem tirar-lhe um dreno da bochecha e mudar-lhe o penso no braço. Os Doutores Palhaços espreitam à porta e, imediatamente, o menino reage, ainda choroso. Chamam pelo seu nome. O menino volta o olhar para o braço e, outra vez, ouve o seu nome. Aos poucos, o G. vai transferindo a atenção do braço para os palhaços e o choro desaparece. Ao ouvir o seu nome, foi como se uma linha fronteiriça se tivesse desenhado e outro lugar emocional se tivesse aberto, o do Encontro, a partir de onde o G. já podia sentir outras coisas. “Têm de vir aqui mais vezes!”, disse a enfermeira, impressionada. Quase metade das crianças da pediatria foi atendida e os Doutores Palhaços nem saíram do lugar!”